
produção é amor
Sou cineasta, tenho 38 anos e há quase 20 anos vivo profundamente atravessada pela cultura. Minha relação com arte começou cedo, aos 14 anos, quando comecei a participar de projetos sociais, educativos e culturais no subúrbio do Rio de Janeiro. Aos 18, entrei no audiovisual e nunca mais saí. Desde então, construo uma trajetória entre cinema, produção cultural, formação, pesquisa e criação de redes.
Me formei em Cinema pela PUC-Rio, estudei Produção Executiva para o Mercado Internacional na Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba (EICTV), fiz especialização em Marketing Cinematográfico e, anos depois, fui para o Reino Unido cursar o mestrado em Creative Business for Executives and Entrepreneurs na National Film and Television School (NFTS). Em Londres, também mergulhei em estudos sobre feminismo, sexualidade e mídia na Goldsmiths University of London. Hoje, vivo em Lisboa e faço meu doutorado em Sociologia Econômica e das Organizações no ISEG – Universidade de Lisboa, onde pesquiso circulação audiovisual, políticas culturais e produtoras lideradas por mulheres na CPLP.
Ao longo da minha trajetória, trabalhei em diferentes frentes do audiovisual brasileiro, passando por longas-metragens, séries, documentários e televisão. Atuei em produções exibidas e premiadas em festivais como Berlim, Veneza, Toronto e Gramado, além de plataformas como Amazon Prime e Paramount+. Entre os projetos dos quais participei estão “Pendular”, de Julia Murat, “Deslembro”, de Flavia Castro, “Cangaço Novo”, “As Seguidoras”, “Tia Virgínia”, “Marighella”, entre muitos outros.
Mas minha trajetória nunca foi apenas sobre cinema.
Em 2014, co-fundei a LUZCA, uma produtora cultural e empreendimento social voltado para narrativas de impacto social, feminismo e direitos humanos. Através dela, desenvolvi projetos autorais que misturavam arte, política, comunicação e redes de apoio. Em 2016, criei o CLANDESTINAS, projeto de ativismo feminista e combate à violência de gênero, e também a CAÇAMBA CULTURAL, uma rede colaborativa que promovia eventos, encontros e ações coletivas para financiar projetos culturais independentes.
Com o passar dos anos, fui entendendo que meu trabalho estava muito ligado não só à realização de projetos, mas também à criação de estruturas para que outras pessoas pudessem existir artisticamente.
Em 2023, já vivendo em Lisboa, trabalhei como diretora de produção na Cultural Trend Lisbon (CTL), liderando projetos culturais internacionais ligados ao MIL – Lisbon International Music Network, além de programas apoiados pela DGArtes e Creative Europe, como Liveurope e SLASH. Coordenei equipes, candidaturas, prestação de contas, programação, produção e estratégias de sustentabilidade cultural em diferentes frentes do ecossistema artístico lisboeta.
Foi também vivendo o deslocamento da imigração, as dificuldades de reconstruir carreira em outro país e a falta de acesso à informação que nasceu, em 2024, o “Se Organiza, Artista!”. O projeto começou quase como uma troca entre amigues: compartilhar editais, oportunidades, ferramentas e caminhos possíveis para artistas tentando sobreviver entre burocracias, precariedade e criação. Aos poucos, virou uma plataforma independente de formação, media, consultoria e apoio estratégico para artistas da CPLP.
Hoje, o Se Organiza, Artista! reúne newsletter, podcast, oficinas, grupos de apoio, consultorias e conteúdos sobre sustentabilidade artística, circulação internacional, financiamento cultural e processos criativos. Através dele, acompanho artistas emergentes, coletivos e estruturas culturais no desenvolvimento de projetos, candidaturas, estratégias de comunicação e internacionalização.
Nos últimos anos, passei a atuar de forma cada vez mais híbrida entre produção criativa, investigação, consultoria estratégica e formação. Tenho colaborado com artistas, produtoras e associações culturais em Portugal e no Brasil, especialmente em projetos ligados à música, dança, cinema, performance, memória, migração e práticas decoloniais.
Entre essas colaborações estão projetos com afárá realizações artísticas, Match Attack, Casa Odara, B.O.T.A., Sardinha em Lata, Cimbalino Filmes, além de artistas como Camila Masiso, Letícia Simões, Isadora Dantas, BATIDA, Mariana Lemos, Aissatu Seidi - Nômada Notebooks, MADU e outros.
Também criei a oficina “Estado Bruto”, uma formação voltada para artistas em processo de criação, apoiada pela DGArtes, onde proponho metodologias para pensar sustentabilidade, autonomia e criação artística sem separar vida, corpo, política e imaginação.
Hoje, meu trabalho acontece justamente nesse cruzamento entre arte, estratégia, pesquisa e cuidado.
Me interessa pensar como criamos redes, como artistas sobrevivem, como circulam entre países e como podemos imaginar estruturas culturais mais sustentáveis, afetivas e menos violentas. Minha prática mistura produção cultural, pensamento crítico, media independente, pesquisa acadêmica e construção de comunidade.
Porque, no fundo, sempre foi sobre isso: criar condições para que mais pessoas possam continuar criando.
